13/09/12

Brasov (Rasnov, Bran e Peles)



 O destino de hoje é Brasov, Transilvânia para uns, Roménia para outros.
 É a cidade onde viveu durante muitos anos Vlad, O Empalador, embora este tenha nascido e vivido os primeiros anos da sua vida em Sighisoara, também na Transilvânia. Mais tarde, com Bram Stoker passou para a ficção, sendo conhecida de todos a história do Conde Drácula.

 É uma cidade simpática, não muito grande, com cerca de 400 mil habitantes. É também uma cidade que vive muito dos estudantes que à data da nossa visita, estavam de férias.

 À chegada, o primeiro impacto é o de um monte rodeado pela cidade, o Monte Tampa. Neste, há um miradouro e o nome da cidade iluminado, bem ao estilo de Hollywood.

Monte Tampa, visto do nosso alojamento.
 Ao contrário da Bucareste, a cidade é bastante limpa e organizada. O centro histórico tem várias avenidas pedonais e aquelas em que passam carros, não são de loucos como as da capital.

 Chegamos de comboio, no regional que a Ana postou anteriormente. Na viagem tivemos a companhia de um senhor velhote muito simpático, que insistia em assistir aos nossos jogos de cartas. A certa altura, oferece-nos uma garrafa de cerveja, de plástico. Tivemos que aceitar. A questão é que a garrafa, como se não bastasse vir de uma mala de onde despontavam vagens de feijão verde, não estava selada e a "cerveja" parecia algo mais escura e sem gás. Quando abri a garrafa, percebi o porquê... não era cerveja mas sim Palinka caseira, uma bebida espirituosa muito parecida com a nossa aguardente. Lá teve que ser, de manhã e em jejum, uns golinhos até o senhor simpático aceitar receber a garrafa de volta. Escusado será dizer, que passou o resto da viagem a perguntar se não queríamos mais um bocadinho.

 À chegada, uma fila enorme de táxis. A senhora do alojamento, a Terezia, avisou-nos quais as companhias fiáveis e do preço até ao alojamento, na rua Nicolae Balcescu, no centro. As companhias referidas pela mesma eram a Martax, TOD e RO, e a viagem não deveria custar mais do que 10 a 12 lei (2euros e pouco). Nessa fila de táxis, constatamos que eram todos praticamente iguais, brancos e sem nenhum símbolo evidente que os distinguisse. Percebemos mais tarde, que efectivamente tinham o nome da companhia de lado, por cima da roda dianteira, mas no meio de uns números e pouco chamativo. O primeiro taxista queria-nos cobrar 20 lei, pelo que tentamos regatear sem sucesso. Passamos então a um dos táxis seguintes - na Roménia apesar de haver posturas de táxis em tudo semelhantes às nossas, a pessoa pode escolher qual quer apanhar, independentemente da posição do mesmo na fila. Assim, lá conseguimos chegar ao alojamento pelos ditos 12 lei.

 Instalamo-nos então na Casa Terizia, que não chegava a 10 euros por pessoa, em quarto duplo. O quarto não era nada de especial mas era limpo, silencioso e bem localizado. O senão, é que do outro lado da sala, viviam os pais da dita senhora mas só os vimos no dia em que saímos ao entregar a chave.

 Saímos então para uma primeira volta pelo centro, a destacar a belíssima Praça Sfatalui e a Igreja Negra que infelizmente se encontrava em obras e como tal não pudemos entrar.

Ana Costa na Praça Sfatalui, com a Igreja Negra ao fundo
Em frente à Igreja Negra
Ana Costa em frente à Casa Sfatului, na praça homónima
 Como podem constatar pelas fotos, o Sol já se punha e já não deu tempo para muita mais do que um passeio pelas ruas do centro histórico. Como tínhamos "almoçado" por volta das 17h, tal como muitos romenos faziam o seu "segundo almoço" (esta gente está sempre a comer e é magra: ténias?!), recolhemos novamente ao alojamento mas não sem antes tratarmos de alugar um carro para o dia seguinte. Um Opel Zafira, em bom estado, custou-nos 40 euros, com 200€ de caução bloqueados no cartão.

 De manhã cedo, como combinado, lá estava o carro à nossa espera mesmo em frente ao nosso alojamento. Se quiserem o contacto do Daniel, senhor que nos levou o carro, é o +40 (731) 321 400. 

 Partimos então em direcção a Poiana, a estância de montanha nas imediações da cidade, que nos deixou com vontade de regressar no Inverno para praticar desportos de Inverno. No Verão, é uma zona verdejante, lindíssima mas da qual infelizmente não temos fotografias pois tínhamos noção que tempo ia ser muito apertado, e como tal não paramos. O nosso destino era, afinal de contas, visitar 3 dos muitos castelos que a Transivlânia tem para oferecer aos seus visitantes.

 Seguimos para Rasnov, onde se localizava o primeiro castelo a visitar. À chegada, estacionamos o carro no parque (gratuito apesar das girafas e máquinas de bilhetes desactivadas) e compramos um bilhete de 2€ que julgavamos ser de subida e acesso ao castelo. Errado. O bilhete era apenas para a subida, numas carruagens puxadas por um tractor agrícola!!!

Algures entre Poiana e Rasnov
Dito tractor agrícola
 Subimos então a encosta no tractor, não que a viagem seja longa ou difícil mas já estava paga.
 O castelo fica num monte com vistas magníficas para Rasnov, assim como para os Cárpatos.
 A entrada rondava também ela os 2€, se não estou em erro.

Castelo de Rasnov
Rasnov e os Cárpatos
Rasnov
No interior das ruinas
Interior do Castelo
 À saída, referência ainda para os cestinhos de frutos vermelhos, baratos (cerca de 1€) e apetitosos!!!


 De seguida, saímos com destino a Bran, terra do mais famoso castelo de Vlad, O Empalador. A viagem é curta mas cuidado com a estrada, e acima de tudo, com os condutores locais que desrespeitam as mais elementares regras de trânsito. Estes parecem ainda ter uma especial apetência para ultrapassar nas curvas cerradas sem visibilidade.

 O pequeno vilarejo está já infestado de turistas dos quatro cantos do mundo, assim como por todo o tipo de negócio associado ao mesmo. Apesar de aqui existir grande variedade souvernirs, desaconselho vivamente que façam aqui as vossas compras pois os preços estão bastante inflacionados.

 O castelo em si, é bonito por fora mas nada de especial no seu interior, sendo que algumas das salas contém apenas informação relativa à mitologia associada ao Drácula. Como chovia e trovoava, apesar do intenso calor, o cenário parecia perfeito!

Castelo Bran, visto ao longe.
Vista da base do Castelo, lembra-me a Suiça
Sala Interior do Castelo


Pátio e varandas interiores


 
Escusado será dizer para que servia...
 À saída, corremos para o carro pois voltava a chover. Apenas um reparo para os senhores que "gerem" o estacionamento circundante. Este apesar de ter placas a indicar que o parque, aparentemente público, é pago, tentam extorquir antecipadamente quantias elevadas aos turistas afirmando que são necessárias pelo menos 2 horas para ver o castelo. Pura mentira, uma hora chega perfeitamente. Além do mais, duvido (muito) que o seu trabalho seja oficial ou até mesmo legal.

 De volta ao carro, partimos então para a região de Sinaia, outrora a região turística mais badalada entre as elites do país. O nosso objectivo era visitar o Castelo de Peles (um palácio para os nossos padrões, e não um castelo), construído pelo Império Austro-Hungaro. Foi o primeiro palácio electrificado da Europa e contava todo o tipo de "modernices" para a altura, nomeadamente sala de cinema, elevador e sistema de aspiração central!
 Chegamos mesmo em cima da hora da última visita, que já só permitia a visita do piso inferior. O bilhete até era acessivel, 20 e poucos lei (pouco mais de 4€), mas a câmara fotográfica também pagava bilhete, estupidamente mais caro do que bilhete pessoal (6€). Como já tínhamos caído neste "esquema" antes  e ninguém controlava nada, decidimos arriscar, tal como os demais visitantes. A visita é guiada e há uma série de "cães de fila" lá dentro, pelo que ninguém do nosso grupo (cerca de 30 pessoas) tirou uma foto que fosse. Uma pena, porque é brutal! Certamente perdem mais do que ganham com esta imposição.
 Ficam as fotos do exterior:




Atenção aos ursos!!!





 No final da visita, regressamos a Brasov. A viagem, que já não era tão curta quanto isso - afinal de contas passamos o dia a afastar-nos de Brasov - tornou-se ainda mais longa com um engarrafamento causado por obras. Mas nada demais e lá chegamos a Brasov. 
 Acabamos a noite a jantar num restaurante de um hotel na avenida pedonal principal a ouvir Cesária Évora! Um copo num dos muitos bares da cidade, uma última volta pelas ruas até que conhecemos 3 rapazes "nativos" simpáticos numa esplanada. Ao descobrirem que éramos de Portugal, começaram imediatamente a falar da única coisa pela qual Portugal parece ser conhecido no mundo por estes dias: Futebol. Passamos o resto da noite no Schwarz Pub, o único aberto àquela hora no centro, a confraternizar. Ficamos com o contacto e regressamos ao alojamento.
 No dia seguinte, partíamos para Bucareste com vontade de regressar a Brasov, onde certamente ficou muito por explorar.


10/09/12

Bucareste

Parlamento de Bucareste
 Bucareste, capital e maior cidade da Roménia, é uma cidade com cerca de 2 milhões de habitantes, embora a área metropolitana ultrapasse esse número.

 É sem dúvida uma cidade à qual é impossível ficar-se indiferente, sendo no entanto, o sentimento que se nutre por ela ambivalente.

 Este foi o nosso destino final na Roménia, antes de partirmos para a Moldávia. Chegamos a meio da tarde, de comboio, vindos de Brasov. No Intercidades, pagamos 57 Lei, cerca de 12 euros. Se reservarem o bilhete antes, há sempre um desconto na Roménia. Podem ver horários e inclusivé comprar os bilhetes antecipadamente neste site.

 O comboio, contrariamente aos Regionais e Inter-Regionais, era moderno. Fica aqui a comparação deste com o Regional que apanhamos de Sighisoara para Brasov:

Regional
Inter-Cidades

 Parecido, não é? 
 Já agora, a Roménia tem umas das maiores (e eventualmente piores) redes ferroviárias da Europa, o que torna possível viajar para praticamente todo o lado por este meio de transporte, desde que tenhas muito tempo - mesmo com comboios modernos, muitas vezes são muiiiiiito lentas, provavelmente pelas condições da bitola, a precisar de uma modernização.

 Por muito estúpido que possa parecer, vou começar o meu relato por um restaurante, provavelmente o melhor do Mundo na relação qualidade/preço: Caru cu Bere

Tecto e parte do piso superior (foto retirada do site do restaurante)
 Contrariamente ao que o aspecto possa indiciar, este restaurante, que nos foi recomendado pelo dono do primeiro alojamento (já lá vamos a essa parte...), é muito barato, até mesmo para os próprios romenos, diria eu. Para terem uma ideia, ao almoço têm menus com sopa, salada, prato e sobremesa, tudo isto por cerca de 4 euros. A comida era deliciosa, o serviço magnífico e na primeira vez em que lá fomos tivemos ainda direito a música clássica ao vivo: 2 violinos magistrais e um pianista exímio!!! Escusado será dizer, que o edifício correspondente é considerado Monumento Histórico.

Fachada Exterior
 O restaurante fica numa das avenidas pedonais do centro histórico de Bucareste, mais concretamente na Strada Stravopoleos. No verão, arranjar lugar na esplanada é tarefa complicada, e mesmo no interior é preciso alguma sorte. Claro que com a beleza interior do restaurante, não nos importamos um bocadinho que fosse de ficar no interior.
 Os empregados falam todos inglês perfeito ou perto disso, e embora não parem um segundo, são extremamente atentos e simpáticos. Para terem uma ideia, gostamos tanto que voltamos no mesmo dia ao jantar, desta feita, para o piso superior.

Piso inferior
Mussaka (frente) e Ragu (feijão) com Salsicha
Mais uma foto
 Bom, deixando agora a comezaina de parte, voltamos à nossa chegada a Bucareste. Tinhamos reservado um apartamento no centro, mesmo em frente ao Novotel, e à chegada dirigimo-nos para a morada indicada pela "empresa" responsável pelo mesmo. Quando lá chegamos, de autocarro, não havia uma placa, uma campainha, enfim... não havia sinal que fosse de nada! Ligamos então para o número fornecido e o senhor informou-nos que deveríamos ir ter à morada do hotel. Informou-nos também que seria impossível ir-nos buscar e que deveríamos apanhar um taxi. 

 Os taxis em Bucareste (e um pouco por toda a Roménia) são manhosos. Há taxis legais e ilegais, sendo que os primeiros muitas das vezes funcionam como os ilegais, ou seja, não ligam o taxímetro. Como tal, é melhor combinar e regatear sempre o preço antes de entrar. Apanhamos então um taxi, que nos queria levar 20 lei mas num segundo baixou para 10 lei (cerca de 2,20€). 
 À chegada, fomos então para o "Superior Studio" que tínhamos alugado. O problema, é que este de Superior, não tinha nada. Não era o que tínhamos visto nas fotos, mas sim um outro mais barato, estava sujo, o ar condicionado quando ligado não refrescava mas fazia tanto barulho como um tractor, a kitchenette era um lavatório de casa de banho rodeado de pequenos aparelhos eléctricos velhos e com aspecto de quem ia explodir assim que fossem ligados. A internet Wireless, era lenta, lenta, lenta.
 Lá nos conformamos, ao menos era no centro e era barato (11€/pessoa). Já agora, o nome da empresa é Apartment Bara e não recomendamos de todo.

Entrada do apartamento (era bem mais escura do que parece)
 Banho tomado, vestimo-nos e saímos da espelunca. O George (senhor do alojamento) indicou-nos o caminho para as ruas pedonais, onde se encontravam a maioria dos restaurantes e bares da cidade. O problema, é que este trocou a direita com a esquerda e fomos no sentido contrário. Acabou por ser não ser mau visto que passamos logo por uma das praças principais da cidade, a Praça da Revolução, onde ainda assistimos a um teatro de rua.

Teatro na rua
Calea Victorei
Igreja Krestzulescu
Praça da Revolução
Praça da Revolução
Monumento à Revolução
 Uma das características mais marcantes de Bucareste é o enorme contraste entre edifícios históricos, edifícios da era comunista e edifícios modernos, patente na seguinte foto. O trânsito em Bucareste é frenético e caótico, sem grande respeito (para não dizer nenhum) pelos peões. Buzinões a toda a hora. Há muito cimento e alcatrão, pelo que a cidade é muito, muito quente no verão.

Contraste entre edifícios históricos e contemporâneos.
Ópera
 Continuamos a andar, ainda sem nos termos apercebido do erro em que tínhamos sido induzidos. Apercebemos de imediato de um outro tipo de "turismo", talvez o mais rentável e conhecido, em Bucareste:

Raissa (esta é pro Mário:p)
 Seguimos até chegarmos à Praça da Vitória, grande e imponente mas toda ela coberta de cimento e alcatrão, onde finalmente percebemos que algo estava muito errado.

Parte da Praça da Vitória, foto muito má mas fome já era superior a tudo:p
Voltamos então para trás e quando finalmente encontramos as ditas ruas pedonais, ficamos encantados com as mesmas! Ruas repletas de gente, diversidade e restaurantes e bares porta sim, porta sim. Sem grande demora, decidimos jantar num restaurante libanês para variar um bocadinho (afinal de contas andávamos há já uma semana e tal a comer comida romena). Este estava à pinha, maioritariamente muçulmanos, pelo que decidimos sentar. A comida era fantástica e acessível, cerca de 12€ para duas pessoas, pelo banquete que se segue:

Restaurante Libanês
 Mas havia um prenúncio de morte no ar, ou melhor, no chão... o Paulo avistou uma primeira barata a sair de uma greta no prédio, mas como bom esposo que é não me disse nada, visto que eu tenho fobia a baratas, e tentou espezinha-la discretamente. O problema é que era uma luta desigual, pois eram mais do que as mães! Em minutos estava toda a família fora da greta a rondar a nossa mesa! Pedimos então para trocar de mesa. Ufa!!! 

 Seguimos após o jantar para os bares (há muita escolha, muita animação, divertimento não falta - os preços são um pouco mais caros do que na restante Roménia - afinal de contas, é a capital). 
 Terminamos já a noite numa pequena discoteca no centro, cujo chão era todo alcatifado: segurança e higiene sempre em primeiro lugar!!!

Strange Bar, se não estou em erro (boa ideia para reciclar paletes)...

Palácio CEC, de noite e de dia.

 Após uma noite muito mal dormida (calor, barulho, ligeiros problemas de saúde), lá nos levantamos e surge um primeiro problema com o alojamento: não havia água (gritos de desespero)! Contactamos a agência do apartamento que nos informou que esta estaria de volta lá para o final da tarde, caso contrário mudavam-nos de apartamento. Ok, aceitável.
 Saímos então novamente da espelunca e fomos almoçar ao restaurante descrito no início deste post. No fim do repasto, lá saímos quase a rebolar, onde nos deparamos com uma igreja ortodoxa, que dava o nome à rua:







Igreja Stravopoleos na noite anterior
 Seguimos então a pé para o parlamento, 2º maior edifício público do Mundo (atrás do Pentágono) e maior edifício administritativo do Mundo. Foi construído a mando de Ceausescu, ditador da era comunista que foi fuzilado juntamente com a esposa após julgamento sumário de 90 minutos, após a revolução. Para nossa desilusão, não era possível visitá-lo nessa altura, pelo que fica mais uma foto do exterior do mesmo.

Paulo nas margens do Rio Dambovita, a caminho do Parlamento
Colossal Parlamento Romeno.
  Por fim, mas não menos importante, faltava um último "problema". As nossas amigas do restaurante, as baratas, foram ao apartamento fazer-nos uma visita digna de qualquer filme de terror. Ora vejam lá: encontro-me eu a tomar banho e vejo uma sombra na cortina do chuveiro a subir! Grito estridente pela vida, como quem diz, pelo Paulo. Após uma breve inspecção pela casa, descobrimos mais umas 4 ou 5,  pequenitas - filhas de "alguém" maior.
 Foi a gota de água, reservamos um quarto no Golden Tulip Hotel, por 40 e tal euros (muito bem gastos) com a internet-caracol do apartamento, e lá fomos nós. O quarto era fantástico mas não fomos dormir sem antes ter que matar uma cigarra que havia entrado pela janela. À porta do hotel, de construção recente, vimos ainda mais alguns elementos da "família", pelo que concluímos que a cidade estará infestada de baratas. Yuckkk!!!

 Fora isto, é uma cidade que vale a pena visitar e 2 dias foram curtos, ficando certamente muita coisa por ver. A regressar quando a cidade for desinfestada.

 Baci*

07/09/12

Chisinau

De mini-bus, vindo de Bucareste, são 7 a 8 horas até Chisinau. Para mim é nas viagens de mini-bus que a verdadeira acção acontece. Há sempre um leque vasto de entretenimentos: um carro para rasar, uma faixa para inventar, um precipício para desafiar - muitas vezes (ou quase sempre) - feitos em autênticos "machimbombos".

Desta vez as coisas foram um pouco diferentes. O mini-bus tinha ar condicionando, um televisor a passar filmes, um aparelho a mandar bons cheirinhos para o ar de 15 em 15 minutos e um condutor maluco (esses são sempre garantidos). Bati palmas de satisfação na iminência de algum conforto. A viagem custa perto de 16 euros/ida. Existem algumas companhias a operar, pelo que tendo o número das mesmas, podes sempre ligar a perguntar horários e "reservar" o teu lugar. Deves sempre chegar antes da hora indicada pela senhora das informações ou motoristas, visto que a hora fornecida é meramente indicativa. O mini-bus uma vez cheio, parte.

Como seria de esperar eramos os únicos turistas a fazer esta viagem. Sentia a curiosidade dos demais, que sorriam e tentavam adivinhar o que nos levaria aquelas paragens. O Vitaly foi uma dessas pessoas curiosas e simpáticas que nos abordou. Tinha vinte e poucos anos, falava inglês e já tinha trabalhado em Espanha pelo que o relacionamento foi fácil.

Falo do Vitaly porque ele foi sem dúvida uma das pessoas mais prestáveis e generosas que conheci nesta viagem. Ele, aquando da nossa chegada a Chisinau e para nos indicar o caminho, veio connosco até ao nosso hostel e pagou-nos inclusive as viagens de autocarro. Obrigado Vitaly :)

Chegada a Chisinau


A primeira impressão é de uma cidade pobre. A segunda é: "isto é a capital de um país?!"
A cidade é mais pequena do que tinha imaginado, e mais verde também. O que é sempre bom. Mais tarde fiquei a saber que Chisinau é umas das cidades mais arborizadas da Europa.

Chisinau, ou Kishinev como era chamada durante a ocupação soviética, é a capital da Moldávia Independente.  A sua população é principalmente de etnia moldava/romena (74%), russos, ucranianos e búlgaros. Esta diversidade  pode ser explicada pela sua história. Em 1982, a cidade foi ocupada pelos russos. Mais tarde pelos romenos. Após o final da 2ª Guerra Mundial, Chisinau, ficou como sendo Capital da República Socialista Soviética da Moldávia.

Chisinau foi a cidade mais estranha e "diferente" onde já estive. A cidade é pobre. Para além da simpatia das pessoas, pouco existe. Senti desde o primeiro minuto uma tensão diferente no ar. Foi a primeira cidade em que sentia receio de passear à noite pelas ruas. Uma espécie de tensão pairava no ar. Mais tarde, em conversa com a "rapariga do hostel" ela confirmou-me que a cidade não é assim tão segura. À noite não existe praticamente iluminação pelo que é necessário andar sempre com uma lanterna.

Ficamos alojados no "Retro Moldava Hostel". O hostel tinha o custo de 15€/noite sendo um preço justo pelas condições que oferece. O hostel estava cheio e era bastante acolhedor. Caso pensem em escolher este hostel não se deixem intimidar pelo aspecto exterior do prédio, que está muitoooo degradado (!) Confirmem a v/ reserva porque ao chegarmos não tínhamos quarto, e digamos que lá a escolha não é muita...

O problema, é que tinhamos feito uma alteração da reserva que os "baralhou" um pouco (falta de comunicação entre staff) e isto levou-nos a umas boas 2h de espera até termos o nosso quarto.


Dormitório do Retro Moldava
...e sim era mesmo numa cave...

Instalados e de banho tomado, seguimos então para jantar num restaurante recomendado pela recepcionista do hostel. O problema é que este ficava longe e só quando lá chegamos é que percebemos que fazia parte da cadeia Andy's Pizza (afinal de contas, ainda só tinhamos passado por 2 pelo caminho, um deles a escassos 500m do hostel...). Voltamos para trás e jantamos numa pizzaria (eheh) barata no centro de um dos parques centrais. Uma pizza suficiente para 2 pessoas, feita com ingredientes frescos, saborosa e com bom aspecto, custava por volta de 3 euros. 

Depois de jantar, seguimos à procura da noite inexistente. Mais uma vez, a gentil senhora do hostel, indicou-nos uma rua que supostamente estaria repleta de bares, restaurantes e discotecas. Não encontramos mais do que 2 ou 3 restaurantes, ora com mau aspecto, ora com aspecto de serem caros, 2 ou 3 tascas e nada de discotecas. Compramos então umas cervejas (meio litro, 12 lei - menos de 1 euro) num Kiosk e regressamos desanimados ao hostel. 

À chegada oferecemos ao funcionário da noite, um rasta Ucraniano, uma cerveja que ele prontamente aceitou. Perguntamos pelos bares e discos, e ele insistiu que estes estariam abertos (afinal de contas era sábado à noite) embora tenha admitido que parte deles fecham no verão. Ponderamos regressar para mais uma busca mas, conversa puxa conversa, e acabamos por ficar até ao amanhecer na conversa com o Mark e com a gentil senhora, cujo nome não me recordo de todo!

No dia seguinte acordamos cedo e fomos dar uma volta pela cidade. Era Domingo, e dêmos de cara com fantástica feira de artesanato e produtos locais. Aproveitamos para comprar algumas coisas para nós mas, infelizmente com preços bastante inflacionados por sermos turistas - diabretes(!) De seguida ficam algumas fotos da cidade, com algumas das suas principais atracções...

Arco do Triunfo

Igreja Ortodoxa Moldava
Parlamento da Moldávia de fundo
Igreja da Natividade, mesmo em frente à Ortodoxa
Lei Moldavo, grande e valioso!!!

Outra coisa que me impressionou foi a quantidade de casamentos que se vêem por aquelas bandas. Só num dia vi para cima de 5. E são bastante diferentes dos nossos. Para além da maioria da população ser ortodoxa, eles não vão em modas: convidados nunca mais de 15 ou 20 pessoas, as fotos são para a noiva (o noivo fica de fora a olhar e a segurar no raminho de flores da sua donzela) e a decoração dos carros é a que se segue.



Freakshow!!!
Casamento Moldavo 
É de salientar que a cidade está organizada por 5 sectores, sendo que alguns mostravam sinais de extremo abandono...

No final da tarde, e debaixo de um calor tórrido, começou a chover de forma absurda. Fomos para o hostel. Jantámos por lá e passamos um bom serão a jogar cartas e a ouvir a chuva cair. Era hora de ir dormir porque tínhamos que acordar cedo para apanhar o comboio para Tiraspol. Um outro rapaz do hostel preparou-nos um banquete para o pequeno almoço: cereias, café,sumo, ovos cozidos, manteiga, compotas e torradas - isto às 6:30 da manhã!!!!


Apanhamos o táxi com mais duas hóspedes do hostel que iam para Odesa e lá fomos nós. Do hostel para a estação de comboios ficou por  1,25/ pessoa. Por fim deixos-vos uma foto da "polícia fronteiriça".





Dentro de dias será publicado a próxima paragem: Roménia


Baci*

Tiraspol

O primeiro post relativo a destinos visitados diz respeito ao único que não aparece no mapa, porque pura e simplesmente não é reconhecido como tal pela comunidade internacional. 

A Transnístria (ou Pridnestrovia, Transdnister, etc) é uma república de facto independente mas apenas reconhecida pelas repúblicas da Abkhazia, Ossétia do Sul e Nagorno-Karabach, todas elas também repúblicas de facto independentes não reconhecidas pela comunidade internacional.

Quando digo que é de facto independente, digo-o porque apesar ser parte da Moldávia, esta tem as suas próprias fronteiras, controladas pelo seu próprio exército. Tem também o seu próprio governo, moeda, passaporte, etc.

Esta república separatista, com cerca de 500 mil habitantes, surgiu após uma aproximação da Moldávia à Roménia, com vista à re-integração da mesma (antes da 2ª Guerra Mundial a Moldávia era Romena). O problema é que para lá do rio Nistru (daí o nome), a população é maioritariamente eslava, descendente de Russos e Ucranianos. Estes temendo ser anexados à Roménia, proclamaram então a independência em 1990, com o apoio da URSS. Após a independência da Moldávia, iniciou-se então uma guerra que durou até 1992, altura em que foi assinado um cessar-fogo, mantido por uma força de manutenção de paz constituída por militares russos. A questão torna-se ainda mais complicada se tivermos em conta que esta parte da Moldávia, antes de ser Moldávia, era Ucraniana.

A capital do País, e maior cidade, é Tiraspol (sendo a segunda maior cidade da Moldávia, logo a seguir à capital Chisinau). É uma cidade tipicamente soviética, onde ainda reinam a propaganda bem ao estilo soviético e só recentemente começou a haver alguma abertura ao exterior, assim como ao investimento estrangeiro.

 Durante anos o país foi tido precisamente como que um "parque temático", um local onde a URSS nunca acabou. Há também relatos de que é um paraíso do crime, onde reina o tráfico de armas, pessoas e drogas. Por fim, mas não menos importante, há inúmeros relatos de pessoas que foram extorquidas pelos guardas fronteiriços. Quando visitamos um país como este, convém não esquecer que não sendo reconhecido, não tem embaixada de país algum (à excepção dos 3 em situação semelhante supra-citados).

Pois bem, corria o mês de Julho do ano corrente e terminamos o nosso périplo pelo Leste precisamente em Tiraspol, restando-nos apenas 1 dia para regressarmos a Bucareste, via Chisinau, para apanharmos o voo de regresso.


 No dia 16 de Julho, às 7 e tal da manhã apanhamos em Chisinau o comboio para Odessa (o único do dia para Tiraspol). O comboio apesar de muito diferente (bancos em madeira, tipo bancos de jardim) encontrava-se surpreendentemente em bom estado e limpo! Aproximadamente 1h e pouco depois da saída, chegamos à fronteira. Tudo decorreu normalmente, pediram-nos o passaporte (guardas da Moldávia e depois da Transnístria) e seguimos caminho. Reparamos no entanto, que não carimbaram os passaportes. Pouco depois chegamos a Tiraspol.

 Estação de Comboios - Tiraspol


O primeiro desafio, foi orientarmo-nos com um pequeno mapa da reserva do hotel para o encontrarmos (o Triposo no meu iPhone teimava em não nos colocar no mapa...). Surpreendentemente, o primeiro jovem que encontramos pelo caminho falava um inglês fluente! Este explicou-nos que ainda era um pouco distante dali, qual o mini-bus que devíamos apanhar e preço a pagar. Pouquíssimos minutos depois, eis que passa o dito mini-bus, fizemos sinal para parar. Entramos, o motorista não quis dinheiro algum e um polícia (!) que ia no banco do meio, explicou-lhe onde era o hotel e avisou-nos onde devíamos sair. Começou a caminhada final, com muitos pedidos de indicações pelo meio - ninguém falava inglês ou qualquer outra língua ocidental. Nem mesmo o pouco Romeno que fui aprendendo na semana anterior (nota: a língua Moldava é basicamente Romeno) me serviu de alguma coisa. Mais gesto, menos gesto, mais rua, menos rua, chegamos ao City Club Hotel. Um Hotel 4 estrelas, recente e melhor que muitos 4 estrelas ocidentais, localizado num bairro residencial, a escassos 500 a 700m da rua principal. Caro apesar de tudo, especialmente tendo em conta o país onde nos encontrávamos. Reservamos no Booking por 94e mas devido às grandes flutuações diárias do Rublo da Transnístria, explicou-nos a menina da recepção, tivemos que pagar 104e. Esta explicou-nos também que embora para estadias inferiores a 24h não fosse necessário registarmo-nos no Ministério, era suposto terem-nos carimbado o passaporte ou terem-nos feito qualquer tipo de registo. Esta pediu-nos os passaportes e tratou-nos do assunto.

Voltando ao que realmente interessa, instalados no quarto e após uma breve soneca e um banho, saímos para explorar Tiraspol. Após uma primeira passagem pela rua principal - 25 de Outubro, decidimos almoçar. A escolha não era muita, Tiraspol tem poucos restaurantes e se excluirmos aqueles que têm aspecto duvidoso e os mais carotes, então a escolha fica mesmo limitada. Optamos então pelo Andy's Pizza, uma espécie de rede moldava bem ao estilo americano - parece um McDonalds - mas que serve desde pizzas e pasta, a pratos mais tradicionais como espetadas, sopas, etc. Aí o empregado adolescente, o único que falava inglês, explicou-nos que só aceitavam Rublos da Transnístria (isto depois de termos levantado Rublos Russos na única ATM que encontramos - a alternativa era levantar Dollars Americanos, a máquina não tinha Rublos locais). Fui então a um banco trocar o meu dinheiro e lá almoçamos por uns 7euros (2 pessoas).

Voltamos para a rua principal, passamos, entre outras atracções, pelo Memorial da Guerra da Independência, Cemitério dos Heróis, Chama Eterna e pelo Tanque Soviético, orgulhosamente exibido nesta praça central da cidade. Metros à frente, do outro lado da avenida, encontrava-se o Parlamento, com uma imponente estátua de Lenine na sua frente. Uns metros ao lado, o Monumento Suvorov e uma faixa comemorativa da independência. Passamos ainda pelo Palácio dos Soviéticos, mas infelizmente já não havia bateria nem na máquina, nem no iPhone e como tal não há fotos do mesmo.




Memorial da Guerra da Independência

Ana Costa no ao lado do Cemitério dos Heróis

Monumento Suvorov

Parlamento, Lenine "esvoaçante" na frente

Seguimos para as margens do rio Nistru, onde aproveitamos para descansar à sombra, enquanto apreciávamosos locais em barcos antigos e gastos pelo tempo, com música aos berros, que aguardavam mais clientes para zaparem para uma espécie de mini-cruzeiro pelo rio. No final da tarde, decidimos prosseguir a caminhada até ao único centro comercial da cidade (pelo menos no centro). Não tinha realmente qualquer semelhança com os nossos "Shoppings", não sendo mais que um espaço dividido por umas paredes falsas metálicas em várias lojinhas de comércio tradicional.

Ana Costa na margem do Nistru

 Por fim, tentamos visitar a Igreja da Natividade, mas já se encontrava fechada.

Igreja da Natividade

 Regressamos então ao hotel, onde iríamos jantar por cerca de 16 euros (2 pessoas). Regressamos ao quarto e embora ainda tivessemos vontade de conhecer a cidade à noite, sabíamos das viagens longas que teríamos que fazer no dia seguinte. Sabíamos também que se perdessemos qualquer um dos transportes programados corríamos o risco de não chegar a tempo a Bucareste. Desistimos então da ideia e fomos dormir.

 No dia do regresso, de manhã cedo, fomos novamente para a estação de comboios que era também o local de onde supostamente saía o autocarro para Chisinau. Só que autocarro não existia, apenas mini-bus ou Marshrutkas em russo (Ruteria em Romeno). Saímos então numa carrinha de 9 lugares "kitada" que levava 20 e tal pessoas, algumas em bancos de cozinha (!). Chegamos à fronteira, aquí sim, com algum receio extra de sermos extorquidos para podermos sair. Nada disso, pegaram no passaporte, olharam para nós, ficaram com os papeizinhos do Ministério (onde estava o carimbo...) e seguimos o nosso caminho.

 Em suma, este país oficialmente inexistente, existe "de facto". Não é muito diferente da Moldávia, até mesmo na população, mas isto porque me pareceu existir uma influência russa muita maior do que seria suposto na própria Moldávia. Esta era a zonha que detinha o grosso da indústria da Moldávia, e assim permanece. Como tal, parece-me que se irá manter o status quo actual durante algum tempo, visto que o reacender da guerra é praticamente impossível, visto que seria sempre demasiado destrutivo para ambos os lados. Falta saber quanto tempo se aguentará um regime não reconhecido e o desgaste que isto poderá provocar na própria República Moldava.
 Os receios com que a internet nos inundou, pareceram-nos de todo infundados (ou então tivemos muita sorte...). A viagem decorreu sem problemas, tal como a nossa curt(íssim)a estadia.


A título de curiosidade, que lunetas são estas?!
 E foi isto o nosso "salto" a Tiraspol, capital de um país "de facto" que para o Ocidente não existe!