26/04/17

Jaipur em Vídeo

Hoje foi o nosso primeiro dia no Rajastão e estamos a adorar esta cidade histórica, caótica e muito barulhenta. Aqui palácios monumentais coabitam com muita pobreza e animais. As ruas desta cidade de 3 milhões de habitantes são ainda um enorme bazar onde é possível encontrar de tudo um pouco. Como loucos que somos pela comida indiana e mantendo a tradição dos nossos navegadores, já compramos um kilo de especiarias!

Fica o vídeo que resume mais um dia tórrido.

24/04/17

Barbeiro Indiano em Varanasi

Ontem foi dia de dizer adeus ao cabelo e à barba, por causa das elevadas temperaturas do Verão indiano. Sendo Varanasi conhecida pelas cremações e como "cidade das viúvas" fui aconselhado a deixar o bigode (!) pois o corte total é reservado a quem perdeu um ente querido recentemente. Assim, lá encontrei um barbeiro de rua (levam cerca de metade do preço dos das barbearias) e foi rápido e eficaz. Já o novo look...



15/04/17

Pequim em três dias













À Descoberta de uma civilização Milenar...

República Popular da China, ou Império do meio como outrora fora conhecida entre os chineses, pois  acreditavam estar no centro do mundo. A China é uma das mais antigas civilizações do mundo (os historiadores descobriram vestígios do sec. XVI a.c.) e acredita-se que teve origem na região do vale do rio Huang He (rio amarelo) onde várias populações organizavam-se nesta zona como "cidades estados". 

A primeira Dinastia histórica foi a Shang e já possuíam sistema de escrita e calendário. Seguiram-se mais algumas Dinastias e foi no  ano de 221 a.c., que a China foi unificada como um grande reino ou Império, através da imposição de um sistema de escrita comum pela dinastia Qin. A Dinastia Qin acabou também com os senhores feudais, implementado a criação de um poder centralizado e a adopção de uma doutrina baseada no confucionismo. O confucionismo é uma doutrina criada pelo pensador chinês Kung-Fu-Tzu. Uma das mais belas ideias do confucionismo é que a natureza humana é intrinsecamente boa, porém, é corrompida pelo uso indevido do poder.

Seguiram-se outras Dinastias até à invasão do Império mongol que dividiu o país em 12 províncias. Foi em 1368 que a Dinastia Mongol foi derrubada e expulsa pela resistência interna chinesa, e, esta assume o poder com o nome de Dinastia Ming, esta manteve-se até 1644. Durante este período houve uma expansão do território com a anexação da Indochina, Manchúria e Mongólia. Umas das causas da queda desta Dinastia foi a chegada dos povos europeus em 1516, nomeadamente os Portugueses. A Guerra do ópio foi um insólito na história da China onde este Estado passou a ser semi-colonial e semi-feudal. Foi também em 1644 que surgiu a dinastia Qing - a última dinastia imperial da China antes da Revolução Chinesa. 

A revolução Chinesa pode ser divida em duas fases: 
- o movimento nacionalista liderado pelo revolucionário chinês Sun Yat- Sen, muitas vezes referido como o Pai da Nação e que teve um papel fulcral na aniquilação da dinastia Qing em 1911. Em 1912 que a China é proclamada República da China;
- E a segunda fase com a Revolução Comunista de Outubro de 1949 concluída após a Guerra civil Chinesa onde o partido comunista alcança o poder, e Mao Tse-Tung, é declarado como líder supremo da República Popular da China e a até então República da China ficou confinada à ilha de Taiwan.

Com o início da Era de Mao Tse-tung são aplicadas um conjunto de reformas destacando-se a Revolução Cultural (1966-1976) em que se ambicionava renovar o espírito comunista por meios radicais.  A nação, entretanto, afundou-se em medo, fome, caos e terror até 1976 com a morte de Mao. 

Dois anos volvidos, Deng Xiaoping chega ao poder e dá início a uma maior abertura do país, implementando o socialismo de mercado e abrindo o país ao investimento estrangeiro. Este advogou a necessidade de uma maior liberdade de expressão e até mesmo de crítica aos erros do passado (de Mao, entenda-se), iniciando reformas com vista a uma democratização do país. No entanto, a revolta de Tiananmen em 1989, mesmo ano em que Deng abandonava o poder, viria a colocar um travão em todo o processo de democratização, levando os seus sucessores a consolidar o poder do partido e o controlo que este tem sobre os cidadãos.

Onde Ficar...
Sendo que três dias sabem a pouco em Pequim é útil ficar numa zona bem localizada da cidade para que não se perca (ainda mais tempo) em deslocações. Uma zona que  recomendamos é a zona de Qianmen. Esta zona histórica recuperada tem uma boa oferta de restauração, comércio, e  o mais importante próxima da Praça Tiananmen e do metro. Ficamos alojados no Hotel "The Emperor Beijing Qianmen" que tem bons quartos, um bom pequeno almoço e uma excelente piscina interior de água aquecida que usávamos antes do jantar. No entanto existem várias opções de alojamento nesta zona e em diferentes gamas de preços mas, não sendo nunca muito barata pois, é uma zona realmente boa.

A nossa chegada a Pequim...
A última etapa da nossa aventura transiberiana levou-nos a Pequim - a frenética capital da China onde residem cerca de 11 milhões de habitantes.  Do nosso ponto de partida ao  nosso ponto de chegada, de Ulan-Bator a Pequim, foram 29 horas de viagem. O tempo passou quase a voar, o corpo e a alma já estavam sintonizados numa vida passada sob carris. Ao amanhecer começamos a entrar nos arredores de Pequim e o que víamos pela janelas do comboio foi deveras impressionante: prédios, prédios, prédios, prédios. A China capitalista e ocidentalizada estava mesmo diante dos nossos olhos. Uma capital de contradições: uma cidade imperial preservada por um governo comunista, onde tradição e modernidade andam de mãos dadas.

No total foram três dias que passamos na cidade (sem contar com o dia da chegada e o dia da partida) onde fizemos largas dezenas de quilómetros: ora a pé ora de metro. Acordávamos cedo para aproveitar o dia que por sua vez também terminava cedo (muitas atracções fecham entre as 17 e as 18 horas). A maioria das atracções turísticas tem horário de Verão e horário de Inverno. Os chineses jantam cedo para os nossos padrões, sendo que a maioria dos restaurantes típicos às 20:30 já estavam a encerrar. O tempo ideal para conhecer os principais atrativos da cidade é de no mínimo de 3 dias.

A nossa sugestão para três dias é para pessoas que tenham um ritmo acelerado e que acordem cedo pois, são muitas coisas para fazer em pouco tempo. Se tiver mais dias para a cidade óptimo, poderá fazer tudo com mais calma e adicionar mais locais.

Dia 1:  Praça Tiananmen + Cidade Proibida + Parque Beihai + Hutongs + Torre do Sino e Torre Tambor +  Templo Lhama + Templo de Confúcio


Praça Tiananmen
A maior praça do mundo: Tiananmen ou praça da Porta da Paz Celestial localizada no centro de Pequim, em que em uma das suas arestas a norte tem a Cidade Proibida e na parte ocidental da praça o grande Palácio do Povo. Esta praça sempre serviu de palco para grandes eventos da China Comunista e foi também palco do massacre de  4 de Junho na revolta estudantil em oposição ao governo Comunista.



Cidade Proibida
Uma das maiores e mais visitadas atrações da China. Durante quase cinco séculos foi utilizada como residência dos imperadores da Dinastia Ming e Qing. O nome de Cidade Proibida nasceu pelo facto de apenas a família imperial e os seus serviçais poderem entrar e utilizar o conjunto de complexos do Palácio. Qualquer outra pessoa que se atrevesse a cruzar os seus portões sem autorização era sujeita a uma execução sumária. É necessário ir com tempo e paciência, pois a quantidade de pessoas que visitam o conjunto de palácios é enorme. Na entrada pode-se alugar um audio-guide que existe em várias línguas incluindo o português.





















Parque Beihai 
Um dos mais agradáveis parques que visitamos na muitíssimo poluída Pequim. Estando na cidade Proibida, este jardim Imperial situa-se a noroeste da mesma, ficando a entrada a escassos minutos da saída da primeira. Para além dos belos jardins, existe um lago que dá nome ao parque, pinturas e arcos que acabam por tornar a ida ao parque numa visita cultural. A paredes dos nove dragões é uma das zonas mais famosas do parque mas o atractivo de maior destaque é mesmo o templo Miaoying ou simplesmente Pagode Branco que se ergue no topo da mais alta colina do parque. É imperdível um passeio nos típicos barcos que existem neste parque.


Hutongs
Outra grande atracção de Pequim são os hutongs, a alma da Pequim antiga, que não é nada mais do que estreitas ruelas com habitações de outrora e que compõem os muitos bairros da cidade. Todas as casas possuem um pequeno pátio interior (siheyan) e as casas de banho só existem em algumas ruas e são públicas. Alguns dos hutongs mais conhecidos são os Quianliang, Wudaoying e Dongsi Batiao , entre outros. A noite traz vida aos hutongs mais turísticos havendo uma grande afluência a bares e restaurantes.



















Torre do Sino e Torre Tambor
Outrora estas duas torres, que distam a 100 metros uma da outra, marcavam o ritmo da cidade: Enquanto o sino anunciava o amanhecer o tambor anunciava o fim do dia. Do topo das torres consegue-se ter uma boa vista para a cidade. Na torre do sino permite uma panorâmica de 360º, ao passo que na torre do tambor, a primeira se vierem da rua principal, só é permitida a visita a umas das varandas.


Templo Lhama 
Um conhecido Templo que já foi residência do Imperador e que se converteu num complexo  de Budismo Tibetano. Conhecido também como "Palácio da Paz e Harmonia" possui cinco salões principais onde é possível ver várias estátuas de Buda, sendo a mais impressionante a estátua de Buda esculpida num único bloco de sândalo. A anexação e perseguição de monges tibetanos por parte da China torna este lugar ainda mais peculiar.  A estação de metro Beixinqiao  (linha 5) fica mesmo ao lado do templo.


Templo de Confúcio
É o segundo maior templo Confucionista do país e situa-se junto ao Templo Lhama. Foi edificado em 1302. Na sua direita existe o colégio Imperial utilizado pelo Imperador para ensinar aos estudantes os clássicos confucionistas. Na actualidade foi reconvertido num museu e podemos entrar em ambos com o mesmo bilhete.



















Dia 2: Grande Muralha da China + Avenida Wangfujing + Mercado Nocturno de Donghuamen

Grande Muralha da China
O grande ex-libris de toda a China que não precisa de grandes apresentações, sendo uma das mais belas construções da humanidade. De Pequim é possível visitar diferentes secções da muralha que se encontram também com diferentes tipos de conservação. É possível ir de transportes públicos para algumas secções, alugar um carro ou comprar simplesmente uma tour. O nosso conselho é que estude as várias secções para que escolha a(s) que vão ao encontro do que pretende ver. Alguma referências de secções são:

- Badaling: É uma secção recuperada da muralha com vistas muito belas mas, muito visitada pelos turistas chineses perdendo-se um pouco da magia do local. Existe  teleférico e acesso para cadeiras de rodas. Fica a 72 quilómetros  de Pequim e é possível ir de transportes públicos: 
- Comboio: Ir para a estação "Huangtudian Railway Station" e sair na "Badaling Railway". Depois segue-se uma caminhada de 20 minutos até à entrada da muralha.
- Autocarro: Na Quianmen Arrow Tower apanhar o "Tourist Bus Line 1" ou apanhar o autocarro 877 na estação "Deshengmen".

- Mutianyu: Trecho mais visitado por turistas ocidentais, ficando a apenas 73 quilómetros de Pequim, é uma boa hipótese para quem pretende ter vistas memoráveis da muralha; De transportes públicos apanhar o autocarro 916 Express na estação de "Dongzhimen" e sair na estação de "Huairou Beidajie Station". De seguida apanhar um deste autocarros (h23, h24, h35) e sair na estação de "Mutianyu Roundabout" e caminhar de 10 minutos até à bilheteira.

- Jiankou: Perfeita para verdadeiros descobridores é uma zona não restaurada e muito íngreme da muralha. Localizada a 100 quilómetros de Pequim;

- Jinshanling: Considerada por muitos a secção mais bonita da muralha. Fica a 154 quilómetros de Pequim;

- Juyongguan: Localizada num dos mais famosos passos de montanha atravessados pela muralha, é uma secção restaurada, com poucos visitantes, situada uns quilómetros antes de Badaling.


Avenida Wangfujing 
Localizada no coração de Dongcheng é uma das maiores avenidas de compras de Pequim.
























Mercado Nocturno de Donghuamen
Na transversal da  Avenida de Wangfujing fica o mercado nocturno de comidas. Os preços são muito altos, pois é um mercado para turistas, mas vale a pena lá passar para ver a enorme quantidade de pessoas que lá anda e provar um ou outro petisco.



















Dia 3: Palácio de Verão + Qianmen + Templo do Céu + Pearl Market (Hongqiao Market) 

Palácio de Verão
Mais um monunental jardim Imperial, com Palácio, pagodes e o lago Kunming de fundo, que serviu  durante décadas de residência de férias ao Imperador. Localiza-se a noroeste dos subúrbios de Pequim pelo que é necessário reservar uma manhã para a sua visita. No Verão é um excelente local para fazer uma refeição ao ar livre como muitas famílias chinesas também o fazem. Devido às dimensões do parque é boa ideia trazer um mapa em formato digital ou imprimido. Uma forma rápida e económica de lá chegar é apanhando a linha 4 do metro e sair na estação "Beigongmen". Depois basta seguir o fluxo de turistas e chineses e em poucos minutos estamos no Palácio.



Qianmen 
Uma zona de antigos hutgons recuperados, que se converteu num local  de compras, restauração e alojamento, bastante conhecido devido à proximidade com a Praça de Tiananmen (10 minutos a pé). Vários restaurante da rua principal de Qianmen tem um ar bastante ocidentalizado e muitos chegam a ter uma televisão cá fora com imagens em directo da cozinha para encorajar os turistas a entrar. Contaram-nos que foi uma imposição do governo. O grande petisco da zona é a tripa de vaca e borrego e o famoso pato. Saindo das ruas principais  e indo em direcção aos hutongs antigos ainda não recuperados encontramos (e provamos) a verdadeira comida chinesa a preços bem mais baixos. Uma ressalva é que é possível comprar  a bebida no supermercado e levar para os restaurantes poupando assim uns euros.




Templo do Céu
Situado a cerca de 5 quilómetros a  sul da Cidade Proibida, o Templo do Céu ou Parque do Templo Celeste é um conjunto de edifícios cerimoniais inserido no parque de Tian Tan. Diz a história que era um local de refúgio do Imperador onde o mesmo prestava culto ao céu. Lá podemos encontrar o palácio da oração pelas boas colheitas, um edifício construído todo em madeira, com a particularidade de não ter sido utilizado um único prego. É  necessário umas três horas para explorar o local e os seus jardins.  É possível ver vários idosos a jogar ou a fazer exercício. 
A estação de metro mais próxima do templo é a "Tiantandongmen" que pertence à linha 5.



Pearl Market (Hongqiao Market)
Grande mercado de falsificações onde se compra de tudo um pouco. A venda é um pouco agressiva mas, com paciência é possível fazer boas compras. Tem uma boa praça de alimentação a preços razoáveis. Muito próximo do Templo do Céu.














13/04/17

Myohyang-san


O nosso último destino na Coreia do Norte foi Myohyang-san ou "Montanha da Misteriosa Fragrância". Foi também o dia em que acordamos mais cedo pois supostamente a estrada principal estaria intransitável. No entanto, rapidamente percebemos que afinal não iríamos seguir por um caminho alternativo mas sim pelo caminho normal, que afinal de contas apenas tinha o trânsito limitado por terem sido intervencionadas as juntas de um viaduto. Nada que um punhado de notas no bolso do soldado que "guardava" o dito viaduto não tenha resolvido.

Esta região montanhosa a norte de Pyongyang, parte da reserva mundial da biosfera da UNESCO desde 2009, é conhecida não só pelas vistas mas também pelo Poyhon-sa, um dos mais importantes templos budistas do país, obra da dinastia Koryo que data do século XI.


Esta foi a primeira atracção que conhecemos nesse dia e não desapontou: os jardins encontravam-se impecavelmente cuidados, o templo bem conservado e ainda tínhamos um monge budista como "guia" do templo propriamente dito.








Após a visita ao templo, fomos levados a almoçar ao recentemente renovado Hotel Hyangsan. Esta é uma das unidades hoteleiras de luxo do país, que desde a chegada ao poder de Kim Jong Un tem investido no turismo.




Depois do almoço prosseguimos então para o centro de Exibição da Amizade Internacional, onde são guardados e expostos os presentes de dignatários estrangeiros que foram sendo dados aos sucessivos líderes do país. O imponente edifício, que funde elementos arquitetónicos tradicionais coreanos com o classicismo soviético, é uma sucessão de corredores e salas com expositores dedicados a países de todo o mundo, incluindo Portugal.

Se alguns dos nossos presentes foram oferecidos por "grupos de estudo" do Kimilsunismo, há também nomes mais sonantes, como o de Ramalho Eanes. No entanto, os países que se destacam são mesmo a China e a Rússia, tendo esta última oferecido vários carros e comboios blindados aos vários líderes do país e, imagine-se, um avião particular que se encontra exposto dentro do edifício! Apesar de a sua liderança ser recente, há já salas dedicadas a Kim Jong Un e estes dois países dominam quase por completo o rol de ofertas. Infelizmente não é possível fotografar o interior do edifício, pelo que não há registo fotográfico da visita. 

Foto com a guia local
A visita termina numa relaxante varanda virada para as montanhas, onde são servidos cafés e chás em confortáveis sofás verdes já gastos pelo tempo.


É aqui na tranquilidade destas montanhas, longe da bela mas austera Pyongyang e da simpática Kaesong, que é mais difícil imaginar que a Coreia do Norte seja simplesmente aquilo que nos apresentam. Não deixa de ser estranho que num momento de tensão como o actual, em que paira no ar a ameaça de um ataque preventivo na eventualidade de mais um teste nuclar nos dias em que este celebra o nascimento do seu primeiro presidente, se comente que a China e até mesmo a Rússia estejam de costas voltadas para a Coreia do Norte. Os imensos presentes e as fotos de visitas regulares de delegações de ambos países à Coreia do Norte presentes na exposição indiciam o contrário mas uma visita à Coreia do Norte é mesmo isto: nunca sabemos o que é real e o que é propaganda. Terminamos a nossa visita ao país com muitas mais questões do que respostas, mas sem dúvida com uma imagem de um país melhor e mais desenvolvido do que esperávamos. Que a paz se mantenha por muitos e longos anos, pois se há coisa que não tenho dúvidas é que os coreanos, de ambos lados do paralelo 38, dispensam outra guerra.


26/03/17

Kaesong e DMZ



A nossa primeira saída de Pyongyang teve como destino a DMZ, a Zona Desmilitarizada da Coreia que, ironicamente, é uma das fronteiras mais militarizadas do mundo. Depois de entrarmos no país pela sua fronteira a Norte, com a China, iríamos agora acabar de atravessar o mesmo até ao paralelo 38 que serve de referência à divisão das duas Coreias.



Como saímos após o almoço, passamos a tarde a percorrer um longa, ampla e também deserta autoestrada até à cidade de Kaesong, próxima da fronteira. Pelo percurso, vários pontos de controlo militares bem como militares dispersos pela autoestrada iam fazendo continência à passagem do autocarro. A paisagem montanhosa vai dando lugar a planícies com couves - em fase de colheita para prepararem o famoso kimchi - e alguns campos de algodão marcados com pequenas bandeirinhas vermelhas. Pelo caminho, a guia falou-nos um pouco da agricultura no país e de como são pagos os agricultores nas quintas cooperativas e estatais. Falou-nos ainda da "battle season", altura das colheitas em que, pelo menos em teoria, todos os cidadãos têm que dedicar duas semanas a este trabalho.

Chegamos a Kaesong já de noite, pelo que fomos levados directamente ao alojamento - pequenas casas tradicionais coreanas com pavimento aquecido construídas nas margens de um pequeno riacho - onde haveríamos também de jantar. Foi o único sítio onde ficamos momentaneamente sem luz, embora por um par de minutos apenas.




No dia seguinte acordamos bem cedo para tomar o pequeno almoço e então dar início a longo e tenso dia. Começamos por visitar o túmulo do rei Kongmin, da dinastia Koryo que viria a dar nome à Coreia. Após viajarmos alguns minutos por entre campos e colinas, chegamos a um pequeno monte com uma escadaria por entre jardins coloridos pelo Outono até chegarmos aos túmulos propriamente ditos, do rei e da sua esposa. 





Segundo as guias, aquando da ocupação japonesa os soldados do império tentaram por todos os meios entrar nos túmulos a fim de os profanarem e destruírem, por saberem da importância histórica que estes tinham para a identidade coreana. Nunca terão descoberto a entrada dos mesmos e no nosso grupo a Catarina foi a única adivinhou onde esta se encontrava.

Daqui partimos para Museu Koryo, uma agradável surpresa sem sinais de propaganda do regime. Trata-se de uma sequência de pequenos pavilhões tradicionais, com artefactos históricos relacionados com a dinastia Koryo. À saída, para além da habitual loja de souvenirs que aqui se especializava em Ginseng, algumas mulheres vendiam fruta aos turistas.









Regressamos então à cidade, onde visitamos as estátuas dos dois líderes falecidos, que se encontram no final de uma das principais avenidas no topo de uma colina. Ficamos por alguns minutos a aguardar pela chegada do outro autocarro e como tal pudemos deambular algumas centenas de metros fotografando os locais sem o habitual "bali-bali" com que as guias nos "despachavam" de local para outro.








Seguia-se então aquele que viria a ser o almoço mais típico de toda a viagem: 12 pequenas taças douradas, cerca de metade delas com ingredientes irreconhecíveis, a serem degustadas com sopa e arroz. Um pequeno copo de soju para cada, com as já habituais garrafas de cerveja e água espalhadas pela mesa. Quem quisesse desembolsar algum dinheiro extra, podia provar uma sopa de cão por mais 5 euros ou então um caldeirão (para 3 a 4 pessoas) de galinha com ginseng por 30 euros.



Depois do almoço, regressamos aos autocarros para iniciar então o percurso até à DMZ. Um percurso em tudo igual a todos os outros, até começarmos a passar por sucessivos pontos de controlo e chegarmos a uma espécie de centro para acolhimento dos turistas. Nesta altura começamos a perceber que afinal a visita não iria ter o ambiente "tenso" esperado: o dito centro não era mais do que uma loja de souvenirs com casas de banho onde se aguardava o regresso dos grupos que se encontravam em Panmunjon, o único ponto de contacto entre as duas Coreias ao longo de toda a DMZ. Não houve qualquer controlo de segurança, apenas alguns avisos sobre onde poderíamos ou não fotografar.


Seguiu-se uma breve explicação da zona que iríamos visitar, por parte de um soldado entusiasmado. O entusiasmo deste parecia ter contagiado a nossa guia, a Sr.ª Kim, que prontamente traduzia - com mesmo volume e igual intensidade - as explicações do homem de verde.

Chegada a autorização para avançar, visitamos primeiro o "Museu da Paz", pavilhão onde foi assinado o armistício mas que acabaria por ficar a norte de linha de demarcação. Aqui há um exemplar em coreano e outro em inglês, com as respectivas bandeiras (Coreia do Norte e ONU).


Pouco depois, teremos passado ao lado da solitária  - e segundo alguns rumores deserta - aldeia de Kjong Dong, com um dos maiores mastros de bandeira do mundo que suporta aquela que já foi a maior bandeira do mundo, com um peso de 270kgs. No entanto, com o nevoeiro e chuva com que fomos "presenteados" nessa tarde, não foi possível vislumbrar a bandeira, muito menos a aldeia.

Daqui prosseguimos então para o ponto alto do dia, a visita à Área de Segurança Conjunta, onde uma sucessão de pequenos pavilhões "ignoram" a linha de fronteira e permitem negociações entre ambos países. De cada lado da fronteira, há um edifício principal com vários edifícios anexos. 



Conseguimos não só "entrar e sair" da Coreia do Sul como ainda usamos a rede de telemóvel desse país. Tiramos as fotos da praxe com o soldado que nos guiou e iniciamos a viagem de regresso a Pyongyang, sãos e salvos.